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SUCATEAMENTO NA UFC – Lixo acumulado, salas desativadas e falta de servidores retratam abandono das Casas de Cultura e FACED

Folhas e lixo acumulados por falta de manutenção, carência generalizada de aparelhos de ar-condicionado nas salas de aula, infestação de cupim, infiltrações nos departamentos e falta de pessoal ilustram o cenário atual das Casas de Cultura Estrangeira e da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Em visita aos espaços, que ficam no Campus do Benfica, a ADUFC conversou com professores e servidores técnico-administrativos e constatou o cenário de sucateamento no local. “A sensação que tenho é de total abandono”, relatou docente das Casas de Cultura à reportagem.

O retrato desse abandono é visto facilmente já na entrada do prédio, que apresenta aos visitantes um jardim totalmente negligenciado e que agora acumula quantidade considerável de folhas e mosquitos.  

Sediadas em prédios antigos, as Casas de Cultura Estrangeira enfrentam o abandono da administração superior da UFC. Nas casas visitadas pela ADUFC – Alemã, Hispânica, Portuguesa e Italiana -, os relatos são semelhantes: infestação de cupim, infiltrações e falta de condições adequadas nas salas de aula (com ausência de ar-condicionado e projetores). Com 60 anos de atuação completados em 2021, a Cultura Hispânica ainda aguarda a reforma prometida pela reitoria e nunca concretizada. O mesmo ocorre com a Cultura Alemã, que celebra 60 anos neste 2022.

Na Casa de Cultura Italiana, por exemplo, o teto de PVC de uma das salas chegou a cair em cima de uma funcionária que estava no local. A reparação só ocorreu seis meses após o episódio e depois de muita pressão. As infiltrações são frequentes na Casa de Cultura Hispânica. Quando chove, a água escorre do teto e chega a molhar o quadro de energia do prédio. Equipamentos da sala de vídeo também já foram prejudicados pela infiltração em dias chuvosos. Na Casa de Cultura Alemã, os móveis não podem ficar encostados na parede devido à alta incidência de cupim.

A UFC vivencia atualmente um contingenciamento de recursos em consequência dos cortes federais deliberados pelo governo Bolsonaro. Embora a reitoria não reconheça, oficialmente, o sufocamento orçamentário que a universidade sofre, professores relatam que, nos bastidores, integrantes da administração superior admitem o achatamento do orçamento.  Diante da perseguição recorrente da reitoria aos trabalhadores da UFC, a identidade de servidores técnicos e docentes segue sendo preservada nesta reportagem, que é a terceira de uma série especial que a ADUFC tem produzido sobre o sucateamento na universidade. 

Outro gargalo é a falta de condições adequadas nas salas de aula. No bloco José Tupinambá de Andrade, onde fica a coordenação das Casas de Cultura Estrangeira, das nove salas de aula, pelo menos oito estão sem ar-condicionado, além das duas da coordenação e da sala de reunião. Estão na mesma situação três das seis salas da Cultura Alemã, e mais três na Cultura Hispânica de um total de quatro. Nesse contexto, professores saem em busca de salas provisórias em outros centros para que possam ministrar as aulas.

“Você chega para dar aula: não funciona o ar-condicionado, se tem data show também não funciona, a porta da sala não fecha porque está pendurada no improviso. Isso vai desgastando. A gente já está numa situação do país muito complicada, vem trabalhar, volta para o presencial, tudo atrapalhado, sem nenhuma preparação, você encontra a universidade dessa maneira…”, lamenta docente do quadro das Casas de Cultura.

Falta de pessoal agrava cenário de sucateamento na universidade

O contingenciamento de despesas na UFC já impactou diretamente o seu corpo de funcionários. Em várias unidades acadêmicas, há demanda expressiva de servidores técnico-administrativos que foi potencializada após o corte de trabalhadores terceirizados. Em algumas das Casas de Cultura Estrangeira, não há servidor técnico para atender demandas dos estudantes, o que leva os próprios coordenadores a acumularem a função de secretaria. Já na Faculdade de Educação (FACED), o serviço terceirizado de zeladoria teve recentemente seu quadro reduzido de cinco para três funcionários – na tentativa de dar conta de um trabalho que demanda o dobro de pessoas, segundo docentes ouvidos pela ADUFC.

Os três terceirizados que permaneceram atuando na FACED estão trabalhando, sozinhos, para limpar todos os espaços dos três prédios didáticos e também do Auditório, Centro Acadêmico, prédio do Núcleo de Estudos e Pesquisas Regionais (Nuper), estacionamento, além de varrição do pátio interno e externo. “Trata-se da intensificação do trabalho, pois três pessoas são insuficientes para dar conta de todas as nossas demandas”, destaca trecho de ofício enviado à Superintendência de Infraestrutura e Gestão Ambiental (UFC Infra), no último dia 2 de junho, pela diretoria da FACED(*). 

Ao todo, detalha o documento, são 108 espaços que demandam limpeza nos blocos didáticos, entre banheiros, salas (aula, linhas de pesquisa, reuniões, secretarias administrativas), gabinetes de professores, laboratórios, corredores, almoxarifado e outros, conforme tabela abaixo, elaborada também a partir de plantas da unidade igualmente anexadas ao ofício encaminhado à UFC Infra:

Quantidade de espaços que demandam limpeza nos três blocos didáticos da FACED

A Faculdade de Educação, sozinha, possui uma comunidade de, aproximadamente, 1.200 pessoas, que circulam em suas dependências diariamente, nos três turnos. Devido à alta demanda de manutenção, a unidade tem recebido muitas reclamações. “Avaliamos a razoabilidade dessas queixas, pois três pessoas para atender a demanda de tantos espaços com grande circulação de pessoas é insuficiente”, afirma outro trecho do ofício. O documento detalha à UFC Infra, inclusive, argumentos que justificam a preocupação tanto com a saúde dos/as trabalhadores quanto a de todos que frequentam os espaços.

O “cenário complicado” apontado para a manutenção da limpeza e higiene aparece exatamente no período em que todos os servidores estão retornando ao trabalho presencial, num contexto em que as condições sanitárias exigem ampliação dos cuidados com essas questões. Pelo menos oito banheiros precisam de limpeza três vezes ao dia – pela manhã, para receber os alunos do turno diurno; fim da manhã, para as atividades do vespertino; e fim da tarde, para os alunos do noturno, uma vez que não há nenhum terceirizado para esse turno.

Baseando-se nesses detalhamentos, seguem as considerações no ofício da FACED, que somou 132 rodadas de limpeza para duas colaboradoras: “o que significa que cada uma delas, em cinco dias da semana, tem que contemplar, ao menos, 13 espaços por dia, sem possibilidade de, além dos banheiros, realizar a limpeza em outros locais que demandam manutenção mais de uma vez por dia, como as salas de aula”.

Ainda no documento enviado à UFC Infra, a Faculdade de Educação pede que se leve em consideração a jornada de trabalho de 8 horas por dia e a existência de espaços com maior amplitude, que requerem mais tempo para a limpeza. A direção da unidade aponta evidências claras da inviabilidade da manutenção das condições mínimas de limpeza e higiene dos três Blocos Didáticos (121, 122, 123), que têm dois andares e número reduzido de zeladoras – que também são responsáveis pela limpeza dos banheiros masculinos. 

Para UFC, menos pessoas precisam dar conta de mais espaços

Foi solicitada à UFC, então, a reavaliação do número de terceirizados destinados à limpeza da FACED, para “amenizar a situação precária da limpeza”. Doze dias depois (14/6), a UFC Infra encaminhou à diretoria da unidade uma curta resposta afirmando que o quantitativo de três serventes de Área Interna alocados na FACED está “perfeitamente correta” (sic). A Superintendência argumentou, ainda, que os serviços de zeladoria “são prestados por área e não por posto”. Disse ainda que, tendo o “metro quadrado” como unidade de medida, a quantidade de colaboradores alocados nas unidades está atrelado a (sic) “produtividade que a empresa vencedora propôs na licitação”. 

A ADUFC apurou, ainda, outros exemplos de diminuição de funcionários terceirizados em áreas que não apenas a limpeza. No campus do Benfica, por exemplo, já se contabiliza, extra-oficialmente, redução de 50% ou mais em áreas como: manutenção de ar-condicionado (8 funcionários para 4); manutenção de internet (2 para 1); pedreiros (8 para 4); pintores (14 para 6); eletricistas (6 para 4); bombeiro hidráulico (2 para 1); e marceneiro (4 para 2).

“Não temos esses dados em nenhum documento; sabemos por conta do encaminhamento de demandas. Quando há necessidade de um serviço e cobramos, somos respondidos com a informação de que houve diminuição no quadro de pessoal”, relata docente. A fonte ouvida destaca que alguns problemas de maior urgência são sanados pela “boa vontade” de prefeitos de campi e supervisores, que se empenham e se sobrecarregam para dar conta de tantas demandas com pouco pessoal. “A reitoria esconde que há um corte geral e ficamos à mercê dessas situações”, pontua.

(*) A ADUFC teve acesso a ambos os ofícios (FACED/2 de junho e UFC Infra/resposta/14 de junho) por mais de uma fonte. Os documentos haviam sido socializados pela FACED a todos/as os/as docentes e TAEs lotados na unidade.


Seção sindical dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

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