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TRATAMENTO PRECOCE – Atas de reuniões revelam negacionismo de integrantes do Comitê de Enfrentamento do Coronavírus na UFC

Professores e estudantes foram excluídos das reuniões do Comitê

Os reflexos de um governo federal que nega a ciência respingaram, ao longo dos dois últimos anos de pandemia, em diversas entidades e esferas do país, entre as quais a Universidade Federal do Ceará (UFC), sob intervenção da gestão Bolsonaro há quase três anos. A ADUFC-Sindicato analisou algumas atas disponíveis do Comitê de Enfrentamento do Coronavírus da UFC, que se reuniu pela primeira vez em 16 de março de 2020, e constatou o negacionismo e o aparelhamento ideológico explícitos de integrantes do colegiado, especialmente da administração superior. Entre as propostas, a insistência no tratamento precoce com drogas para a Covid-19, até com tentativas de financiamento de medicamentos sabidamente ineficazes como cloroquina e ivermectina.

Muitos dos posicionamentos favoráveis ao uso de medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento da doença foram defendidos pelo vice-reitor Glauco Lobo, que leciona na Faculdade de Medicina da UFC. Ele assumiu a liderança do Comitê, uma vez que o interventor Cândido Albuquerque só esteve nas quatro primeiras reuniões do Comitê de um total de 41 reuniões. Participaram do colegiado diversos setores da gestão universitária, como integrantes da Reitoria; Pró-Reitorias; diretores de Centros e de Campi; alguns coordenadores e um infectologista convidado. Representantes docentes foram excluídos, enquanto estudantes participaram de apenas duas reuniões.

Chama atenção que, em reunião do dia 4 de fevereiro de 2021, já na segunda onda da pandemia, o presidente do Comitê, Glauco Lobo, ainda defendia que a UFC abraçasse o chamado “tratamento precoce”, determinando inclusive a elaboração de protocolo com essa finalidade. A essa altura, o método já estava invalidado pela comunidade científica e já se alertava, inclusive, sobre os efeitos colaterais da superdosagem de medicamentos ineficazes utilizados para a doença. O vice-reitor ainda chegou a questionar se a universidade poderia fornecer esses remédios, o que é lamentável e macula o nome da instituição de ensino superior.

Como caracteriza qualquer gestão antidemocrática, pautada no silenciamento das vozes divergentes, o Comitê de Enfrentamento do Coronavírus da UFC não contou com opiniões diversas. Essa posição está definida desde o início quando o mesmo vice-reitor sugeriu, na reunião do dia 24 de março de 2020, a formação de um grupo de estudo em Covid- 19 a ser formado por integrantes sem “grandes vieses ideológicos”. Em outra reunião, quando da discussão sobre o possível atendimento de alunos, defendeu-se que “não deve colocar médicos que são contrários, a priori, aos tratamentos disponíveis”, fazendo menção ao fajuto tratamento precoce. Para a intervenção do governo Bolsonaro na UFC, defender estudos, tratamentos e imunizantes comprovados cientificamente é uma postura ideológica, mas negar a ciência e restringir a atuação de profissionais de saúde é neutralidade, segundo eles.

Também merece destaque o esquema de testagem para Covid-19. Conforme encaminhado pelo Comitê no dia 9 de junho de 2020, foram adquiridos pela UFC 13.460 testes sorológicos pelo valor de R$ 1,4 milhão, a partir de recursos liberados pelo Ministério da Educação (MEC). Testes para detecção de anticorpos que, já naquele momento, eram considerados inadequados pela comunidade científica para estabelecerem presença ou não de imunidade. Os resultados destes testes geraram na verdade dúvidas e uma falsa sensação de segurança naqueles que obtiveram resultado positivo. De acordo com as atas analisadas, esses testes foram utilizados, mas não há informação detalhada sobre os resultados, tais como o percentual de alunos, docentes, servidores técnico-administrativos e terceirizados testados, e a taxa de positividade. A ação ficou caracterizada como inadequada, ineficaz e antiética, tudo com financiamento público.

Colegiado optou por negar passaporte vacinal desde o início

A postura antivacinal também prevaleceu no Comitê, sendo questionadas em mais de um momento a eficácia e a segurança de vacinas amplamente testadas. A rejeição explícita de qualquer medida de implementação de comprovação de vacinação para o retorno presencial das atividades está explícita em várias atas, desde setembro de 2021, em alinhamento com a cartilha negacionista do bolsonarismo. A posição contrária da intervenção com relação à implementação do passaporte vacinal para o retorno presencial das atividades, portanto, não é de agora. Já estava explícita há mais de 6 meses.

Das 41 reuniões realizadas entre 16 de março de 2020 e 10 de março de 2022, só foram encontradas 30 atas no Sistema Eletrônico de Informações (SEI/UFC; Processo 23067.034444_2020_21). Entre 8 de setembro de 2020 e 4 de fevereiro de 2021 não há registro em ata de reuniões do Comitê de Enfrentamento do Coronavírus da UFC. Entre 4 de fevereiro de 2021 e 1º de setembro de 2021, período correspondente à segunda e mais letal onda de Covid-19, da mesma forma, não há registros de atas de reuniões do Comitê. A não disponibilidade de várias atas de reuniões não surpreende e revela a falta de transparência da atual administração superior.

A ADUFC-Sindicato lamenta que a administração superior tenha utilizado recursos públicos e espaços institucionais da universidade para disseminar a cartilha negacionista do governo Bolsonaro, ignorando até mesmo pesquisas sérias desenvolvidas dentro da própria universidade para o enfrentamento da Covid-19 e proteção da comunidade acadêmica. Além do negacionismo, aparelhamento ideológico e falta de transparência. Não espanta também que representantes docentes e estudantis tenham ficado de fora do colegiado, uma vez que a própria gestão superior tem se dado o trabalho de atacar sistematicamente esses movimentos legítimos, escolhidos democraticamente pelos seus representados e sem a intervenção de um governo federal autoritário e negacionista.