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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 63: A ARTE E A QUARENTENA

Sandra Montenegro de Holanda (Psicóloga e Artista Plástica)

Tempos estranhos os que estamos vivendo. Já passei por vários momentos nesses sete meses: de Poliana (super otimista) a personagens de Machado de Assis (realistas tendendo ao pessimismo). Inicialmente, o susto, o medo, a insegurança e revolta, agravados por um governo totalmente perverso, equivocado e irresponsável. Vou compartilhar aqui com vocês.

Sou servidora pública aposentada e artista plástica em atividade. Nessa quarentena, algo que mais me assustou foi o tempo. Ficar reclusa com um tempo enorme diante de mim, me paralisou. Inicialmente, fiquei totalmente travada, imersa num deserto criativo. Não conseguia produzir nada. Com tanto tempo, o quê fazer com ele? Todo o planejamento do ano foi suspenso e sem prazo determinado para ser retomado. Isso gerou em mim muita insegurança e angústia. Ler, nem pensar. Não conseguia me concentrar. Virei uma exímia dona de casa. Lavar louça, varrer a casa. Cozinhar era com o marido, excelente cozinheiro. Cuidar do jardim, faxinar a casa, lavar roupa, tudo sem maiores problemas. Ajudava a passar o tempo. A quarentena só não me fez gostar de passar roupa. Desenvolvi até estratégias, roupas só pretas, ou azul marinho e brancas, para facilitar as lavagens na máquina. Aos poucos, fui criando uma rotina, que ajudou também a me organizar psiquicamente: café da manhã (às vezes era a tarde), yoga pelo Youtube, banho de sol na garagem, tarefas de casa, almoço (as vezes era jantar), filmes e séries e dormir (muitas vezes às 3 da manhã). Havia dias que a rotina ia para o espaço, mas tentava não me cobrar muito, sendo mais generosa comigo mesma. Grata por ter uma casa, meu companheiro do lado, uma condição financeira confortável etc – estava na fase da Poliana. Continuava, no entanto, me sentindo culpada por não estar produzindo, fazendo arte. Aos poucos com a ajuda dos movimentos artísticos nas redes sociais, fui produzindo, participando de vários desafios e exposições virtuais. Reuniões com amigos e colegas artistas pelas ferramentas Zoom, Google Meet, WhatsApp, fui me adaptando ao mundo virtual. Abriu-se a caixa de pandora. Minhas sessões de análise online também ocorreram e foram de grande ajuda.

Um estímulo visual pode desencadear meu processo criativo, uma paisagem, uma cena urbana, uma fotografia, mas necessito que este me toque mais profundamente. Ficar em casa isolada foi ficando prazeroso, descobri tanto espaço e momentos legais, apreciei muito a casa. Cada cantinho falava mais internamente comigo e uma produção começou a surgir. Trabalhei e ainda estou trabalhando numa série de obras que chamei: “Tudo de casa”: “A Louca da Casa”, “A Louça da Casa”, “A Roupa da Casa”, “O Gato da Casa”, “A Meditação da Casa” e tenho outros registros que ainda não executei. Posso dizer que a arte foi fundamental para o meu equilíbrio emocional nessa quarentena. Incluo aqui não só as artes plásticas, mas o cinema e a música. Quantos filmes e séries me preencheram o tempo e a alma, quantas músicas escutei na minha varanda, quantos shows maravilhosos assisti… A arte se transformou na nossa voz nessa pandemia, diante de tanta falta de lucidez.

Uma coisa é certa: não há como ficar “normal” diante de uma situação tão desconhecida e perturbadora como esse vírus que atingiu a todos. Aprendi que planos são factíveis de alterações, que tudo se acomoda no seu tempo, que ser generoso um com os outros faz um bem danado. Aprendi a cuidar de mim mesma. Isso é tão libertador, nos fornece tanta autonomia. Não acredito em mudanças coletivas, que a sociedade agora vai ser diferente, que aprendeu algo com essa pandemia (minha fase Machado de Assis). Acredito que algumas pessoas vão sair diferentes sim, e essas talvez possam fazer a diferença futuramente. Talvez pareça contraditório o que acabei de dizer, mas a vida é assim cheia de contradições.
Façamos nossa paleta com cores variadas. Dessa forma, pintaremos a vida, nossa obra de arte.