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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 58: ISOLADAS JÁ VIVÍAMOS

Alêssandra Félix (Mãe, Militante e Abolicionista Penal)

Quando me percebi em isolamento social, meu primeiro sentir-reflexivo foram insights de que isoladas já vivíamos, devido às questões de territorialidade, que determina a passibilidade nessa cidade, que já nos impulsionava a um tipo de isolamento. Essa reflexão, para mim, foi ficando muito nítida com o avançar dos dias. Eu, mulher negra, mãe, moradora de uma periferia dessa cidade nada pacífica, e, ao mesmo tempo, minha cidade, minha Fortaleza, meu Forte onde me abrigo!

Sou uma mãe nada convencional, conheço as consequências irreversíveis do que significa um isolamento territorial, institucional, e com a pandemia, um terceiro e novo tipo de isolamento: o social.

Essa pandemia me obrigou a vivenciar a adoecedora experiência do que é viver esse terceiro isolamento. O fato dessa imobilidade no caminhar dos meus enfrentamentos,  como militante de Direitos Humanos, condição essa da minha caminhada imprevisível, onde caminhar e sobreviver é a lei. Para quem me conhece, e para quem não, esse é o meu movimentar de vida. O de acordar fazendo escolhas precisas nessa cidade, disputando, junto com as minhas narrativas, uma outra, a de respeito à toda vida. O qual requer de mim\nós, passos de coragem, como Guimaraes Rosa anuncia.

Carrego comigo essa propriedade de fala. Como uma “Voz de Representatividade”, mas fui devastada por determinações que implicavam o isolamento social, que nos impossibilitou de atuar na militância. Isso me adoeceu. Recordo-me de notícias que mais adoeciam do que informavam. Comecei a acompanhar as dores de pessoas distantes e a contagem de horas e números que só aumentavam. Recebo uma notícia que dizia que tinha ido embora o amor da vida de alguém. Essa notícia também chegou aos familiares de alguém próximo a mim. O vírus e esse tipo de notícia chegavam numa velocidade assustadora. Rápido chegou nos meus vizinhos. Rápido afetou os parentes dos meus amigos. E logo também os meus próprios amigos.

E nessa mesma rapidez fatal, etapa em que a morte pela Covid-19 apresentava a certeza perversa do não retorno de alguém para casa, perdi meu pai em uma semana de seu internamento. Vivenciei o luto sozinha, nessa maldosa reconfiguração da morte e dos mortos, que também foram embora sozinhos. Não tivemos a alternativa da dolorosa despedida dos nossos entes queridos e próximos.

Nessa perda, nesse sentir solitário, eu adoeci de uma enfermidade chamada: crise de ansiedade. Escolho chamá-la assim: enfermidade. Ela feriu e afetou meu equilíbrio emocional. Me tirou o sono, o apetite, a alegria, pois só chorava sem saber onde doía. E ainda dói muito. Meus batimentos cardíacos se descompensaram no compasso acelerado. Era difícil dormir, assim como era mais difícil acordar e enfrentar os dias solitários e incertos. Uma doença sem cura. Órfã de pai e mãe. Com um filho desolado no seu encarceramento penal. Uma angústia como companhia. Pedi socorro, pois mesmo sem estar com a Covid-19, me faltava ar no respirar. Tal crise de ansiedade nos causa taquicardia. Fui medicada e hoje estou fazendo terapia. Muitas mulheres iguais a mim atravessaram seus dias com as mesmas angústias e sintomas, pois as iguais, se não tinham filhos(as) privados(as) de liberdade, os têm em casa expostos(as) a uma violência que, quando não os aprisiona, os afeta fatalmente, com a mesma rapidez dessa doença.

Me cabe afirmar, aqui, que a memória que me acompanha viva, como uma ferida latejante, é a do meu adoecimento emocional. De ter acompanhado de casa, isolada, as atrocidades da violência urbana, o genocídio e o aprisionamento dos “marginalizados”, que nesses dias doentes desembestaram, aumentando mais ainda. Acompanhar de casa as violações nos Centros Socioeducativos e no Complexo de Presídios deste Estado encarceraDOR, proibida de me manifestar junto às minhas, me faz guardar uma memória desse isolamento como um tempo em que só nos permitiu nos indignar, sem nada poder fazer.

Hoje, sexto mês pandêmico onde militar digitalmente foi um novo aprendizado do não silenciar, até porque não se defende vida só com palavras, o que trago de curativo para concluir meu relato, e foi isso que me possibilitou, novamente, o compasso das batidas do meu coração, voltar ao seu normal, foi a REDE DE SOLIDARIEDADE que conseguimos tecer uns com os outros, subsidiando apoio humanitário e fortalecimento para suportar o confinamento desigual que atravessamos neste Estado. Nesses dias cinzas e doentes, estamos ainda vivas, seguindo juntas com nossas perdas, nossas dores e atentas nas trincheiras e na certeza da não desistência na caminhada. As nossas vidas, a vida dos nossos importa, importa muito. Assim sigo: “Eu pássaro-preto, cicatrizo queimaduras de ferro em brasa, fecho corpo de escravo fugido e monto guarda na porta dos Quilombos” – Adão Ventura. Obrigada, Professoras Camila, Ângela e Alba, por essa oportunidade de fala.