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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 47: PARA NÃO ESCUTARMOS O LAMENTO DO CUÍCA

Jeovah Meireles (Ambientalista e Professor da UFC)

Sempre tive muito gosto pelas dunas. Foi a duna da Barra do Ceará que vi pela primeira vez e fez parte dos primeiros desafios de criança: escalar sua encosta íngreme. A areia quartzosa ficava mais viva, caía como cachoeira no rio, queimava os pés, corava o corpo até alcançar o topo e a brisa marítima. Os pequenos cristais de quartzo cintilantes projetavam imagens da paisagem, do rio e do mar por microespelhos.

Na adolescência, foi o lugar mais alto que conheci, onde podia divagar e ter pensamentos que me conduziam à contemplação e à inquieta razão da existência das coisas e da natureza. Lembro do meu olhar acompanhando o rio Ceará até enxergar suas nascentes entre as montanhas. Naqueles dias, quase sempre a atmosfera estava azul, depois violeta e laranja. Ainda muito jovem, veio o interesse em conhecer as conexões cósmicas entre a lua, a Terra e o sol, que regiam a certeza das marés, desde os tempos de Galileu Galilei. 

Há um bom tempo, quando a duna da Barra ainda tinha seu berço nas praias do Pirambu, os ventos a conduziu para o destino final, um relevo belo e efêmero, que se movia para dentro do rio. Logo percebi que o seu propósito era mergulhar inteiramente na água do mar e seguir conduzida pelas marés, em sinfonia com os raios da lua e as rajadas de vento, as tempestades, a correrem mais rápidas na confluência com a lua nova (allegro) e, lentamente, quando os adágios, a brisa marinha.

Aquelas conexões cósmicas impulsionaram cada grão de areia, que se movimentava devagar no amanhecer, prateado e acelerado na hora do almoço. Na boquinha da noite repousavam, era quando ficavam dourados. Todos os elementos do seu corpo moviam-se e  conduziam a duna lentamente para a margem do rio. Queria sair dali e ser outra duna entre a planície costeira, os rios e as praias que pudesse alcançar.

Os grãos de areia transitam, guiados pelos fluxos de energia por todos os lugares, desde a maior parte dos 4,5 bilhões de anos, decorridos desde a origem do nosso planeta. Foram originados com as primeiras chuvas e a atmosfera era quase sem oxigênio livre. As reações químicas e logo depois as bioquímicas, as profundas mudanças de temperatura, os impactos dos meteoros e as tempestades contínuas, que duravam milênios, formaram uma diversificada família de sedimentos orgânicos e inorgânicos. Eram compostos por cristais de quartzo coloridos e por complexas redes cristalográficas cúbicas, translúcidas e iridescentes da halita (sal de cozinha), do diamante, do ouro e de uma infinidade de outros cristais minerais. No oceano, estavam o  carbono, o oxigênio e o hidrogênio, em abraços covalentes, bailando frenéticos, orquestrados pela luz do sol.

Quando deixei de visitar frequentemente a Barra do Ceará, comecei a recordá-la de lugares mais distantes. Entrava naqueles pensamentos com outros lugares que visitei pelo mundo, sempre tentando compreender os caminhos dos bailados dos grãos de areia que me embalaram, desde a infância, nas reflexões sobre a natureza das coisas sociais e ambientais.

Contei muitas vezes às filhas sobre a importância das dunas para a vida de todas as espécies e onde poderiam parar, ter tempo para se transformarem em solo para as florestas. Frequentemente “o grãozinho de areia” fazia parte das histórias para dormir. Depois de mais de 20 anos, a filha mais velha, Iana, escritora e mestra em Artes pela Universidade de Barcelona, escreveu:

Há muito tempo, existiu um grão de areia que não tinha nome, mas tinha um futuro. Nascido em uma serra qualquer, no mais alto ponto daquele relevo infinito, equilibrava-se singelamente sobre suas incertezas. Nem sempre foi um grão solitário. Em algum momento havia feito parte de um todo do qual agora já não era parte, porque vieram os ventos e os dias novos. Após o sopro, aceleraram as possibilidades…. (Iana Soares, in: Prefácio. Geomorfologia Costeira: funções ambientais e sociais, Edições UFC, 2014)

Hoje, a cidade de Fortaleza continua crescendo na direção das dunas. A sua geometria parabólica gigante foi transformada em quadras de loteamentos, edifícios e cobertas pelo asfalto. A duna de Santa Terezinha, no Mucuripe, como as da Barra do Ceará, do Cocó e do Pacoti, se desmoronava pacientemente na praia do Iate Clube e ao poente da comunidade de pescadores do Titanzinho.  Foi habitada por populações de pescadores expulsas para dar lugar aos edifícios da beira-mar e encurraladas nas áreas mais íngremes e naquelas inundadas periodicamente nas margens dos rios. De lá acompanham, como sempre olvidadas pelo Estado, o incremento da erosão do mar com os espigões, feitos tentáculos de rocha que destroem a beleza e a natureza de grandes extensões do litoral metropolitano.

Para nossa felicidade ainda restam importantes fragmentos dos campos de dunas nas margens do rio Cocó. Entretanto, estamos diante da possibilidade da gestão municipal transformar a Mata Atlântica –  que recobre as dunas fixas da Sabiaguaba há mais de três mil anos e repousam na margem direita do rio (algumas vezes atravessou, barrou o canal e formou um grande lago) – em um lugar sem vida, desmatada por motosserras e suas parábolas gigantes, arrasadas por tratores de esteira e pás mecânicas.

E, assim, destruir completamente a essência da vida dos complexos ecossistemas – dunas móveis e as fixadas pela Mata Atlântica; lagoas interdunares, áreas úmidas, planície de maré, manguezal, apicum, riachos, nascentes de água doce e a vagem entre o sopé da duna e o manguezal – para implantar um megaloteamento com 50 quadras. É assim que o mercado imobiliário atua na nossa cidade: consome a natureza em todas as partes. A construção civil, claramente vinculada aos licenciamentos ambientais criminosos, em áreas de preservação permanentes, tem a práxis avassaladora que degrada os sistemas ambientais da nossa cidade. As dunas da Sabiaguaba são importantíssimas para os fundamentos pedagógicos das ciências multidisciplinares para enfrentar emergências climáticas. Um lugar para a formação de especialistas das mais diversas áreas do conhecimento científico. Ao elaborar e implantar políticas públicas eficientes, é fundamental aprimorar os  cuidados com as pessoas, com as comunidades tradicionais, com os bosques e com a cidade, profundamente interligados com a natureza.

A anuência da SEUMA para a continuidade ao licenciamento do pretenso megaloteamento contribuiu para o risco de degradar o Morro do Miriú, o lugar de domínio ancestral das comunidades Boca da Barra da Sabiaguaba e Casa de Farinha.  Comunidades que estão lutando para a continuidade dos serviços ecológicos que amenizam o clima da cidade, ao dissipar as bolhas de calor e a secura do ar. Os ventos canalizados banham a cidade com a umidade proveniente dos bosques. É a principal área de recarga do aquífero para o consumo humano e uma reserva estratégica para tempos de extremos climáticos. A biodiversidade com espécies raras é protegida, contemplada e inserida no modo de vida tradicional. Os sítios arqueológicos demostraram a importância das dunas da Sabiaguaba para as 120 gerações anteriores à nossa. E os corredores ecológicos entre os bosques de Mata Atlântica, a restinga, a vagem e o manguezal são conectores imprescindíveis para o conjunto de florestas que ainda nos resta.

Vale mencionar, por fim, no caso da disputa com o capital imobiliário e a cidade que desejamos, ações coletivas e:  i) elaborar o plano municipal para enfrentar as mudanças climáticas e envolver todas as escolas; ii) corredores ecológicos conectados pelas bacias hidrográficas e as unidades de conservação; iii) implementar energia renovável eólica e solar no teto de todas as residências; iv) estimular atividades de turismo ecológico, trilhas e turismos comunitário e científico com o envolvimento das comunidades tradicionais e indígenas; v) saneamento universal; vi) ter uma gestão ambiental integrada à RMF; vii) criar planos locais e regionais de monitoramento dos ecossistemas urbanos: viii) incentivar e fomentar grupos ambientalistas nos bairros e as ações coletivas para a formação da nova geração de ambientalistas, de modo a fazer a crítica aos padrões de desenvolvimento que consomem os ecossistemas urbanos.

Importante lembrar que as eleições municipais estão se aproximando. Como a cidade inteira deseja ardentemente a permanência e a ampliação dos bosques, muitos candidatos e candidatas tornam simplesmente utilitários os seus planos ambientais. Entretanto, são poucos aqueles e aquelas que construíram suas plataformas com a coletividade e definiram os processos e os instrumentos para construir o desejo da maioria.

Entre os infinitos caminhos do nosso grão de areia, tenho a certeza que duas trajetórias alcançaram bons destinos. A primeira é aquela na qual os grãos de areia estão no coração das pessoas, que os bombeiam por todo corpo. Como no coração da Iana:

O vento, no entanto, era ansioso. Empurrou o grão para os manguezais. Quando chegou, entre caranguejos e lamas, sonhou com apicuns e marisqueiras. Adormeceu sob as estrelas que pareciam um tanto com ele, mas eram mais exibidas. (ibid., Prefácio).

A segunda trajetória, acumulados nas dunas da Sabiaguaba, bilhões e bilhões de grãos de areia estão ali protegidos pela força da juventude. A mesma juventude que identificou um animalzinho singelo, amoroso, um marsupial, resiliente e sorridente chamado de Cuíca (Cf. Gracilinanusagilis).

A floresta sobre a duna da Sabiaguaba é a moradia do Cuíca, onde passeia com besouros, serpentes, gato-do-mato pequeno, aves, borboletas e abelhas, uma bicharada animada (salve Sabiaguaba!, salve Sabiaguaba!, zunzum), no caminho de areia que vai dar água de beber nas lagoas interdunares.