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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 39: ENTRE MEMÓRIAS, ENCONTROS, CAIXAS E MUDANÇAS

Alessandra Xavier (Professora da UECE)

Ouvi falar pela primeira vez do Coronavirus em janeiro… parecia algo muito distante. Dois meses depois, estive com minha família pela ultima vez, no aniversário de meu irmão. Após isso, foi decretado distanciamento social e fiquei em casa por mais de 90 dias. Desde janeiro, estava me preparando para me mudar: faltava uma semana para o término da obra. Diante do distanciamento, me vi entre várias mudanças: as decorrentes da pandemia e a mudança de casa. Imaginei que o tempo em casa seria momento para elaborar a despedida do espaço, e não imaginava quantas peles ainda trocaria… Entre caixas e memórias, mantendo as aulas com os alunos, os desafios e preocupações com eles, suas famílias, o manejo com os pacientes, a preocupação com a família, assim transcorriam os dias entre o íntimo e a exposição para dar aulas.

Experimentar ficar em casa, quando se trabalha usualmente 14 horas fora, é um reencontro com os espaços internos. Cuidar da casa, ampliar os cuidados consigo, se ver imersa em ações inusitadas (lavar embalagem de sabão), construir protocolos de higienização, descobrir que a falta de prática com ações domésticas e o uso da água sanitária no piso me faria sofrer um acidente doméstico, que me colocou duas semanas com o pé imobilizado com uma bota conseguida por delivery. Como penso em tudo que me acontece, achei que era para prestar atenção na terra e me vi em dupla diminuição do ritmo. Além disso, como espaço e tempo constituem a subjetividade, passei a perceber coisas que não via: ângulos, variação da luz do sol, sentir na pele as fases do luto pelo pé torcido e a ficar ainda mais atenta e sensível às pessoas… Foi quando chegou o convite para a primeira live. Eu que não tinha muito hábito com o mundo virtual, descobri que uma live chama a outra, e que o espaço virtual pode ser lugar potente de cuidados… Passada a primeira, já foram 32 atividades entre lives, webinar, podcast, trabalhos interdisciplinares para organizar acesso à rede remota de suporte em saúde mental, gravação de programa de televisão, rodas de conversa, eventos científicos. Abordando cuidados em saúde mental para adolescentes, população em geral, trabalhadores da cultura, população LGBT, no trabalho, nos espaços educativos; luto; violência contra mulher; políticas públicas e juventude.

O universo virtual abriu uma janela para pessoas que provavelmente não iriam a evento científico, não teriam contato com temas e profissionais de Psicologia, nem acesso a temáticas que conectavam com questões da vida, pensadas com outro olhar. Em cada evento, a potência da vida se impunha em demandas por cuidados, vínculos e esperança. Descobri que as lives oferecem a possibilidade de encontro com a presença de outro vivo; oferecem a certeza da existência naquele momento e confirma a partilha do vivido. Que a intensidade das experiências emocionais vai pela dimensão interna de quem as vive, independente do meio utilizado, presencial ou virtual, e que dimensão simbólica pode arrebatar a imagem. Vivenciei a potência de trocas e surpresas das pessoas consigo, deparando-se com ambivalências e um mundo interno desconhecido, desvendando uma descoberta impactante diante do estranhamento de estar consigo…

Enquanto isso, me via entre caixas e memórias, na dialética entre o interno e o externo, o passado e o presente, e minhas próprias intensidades. Guardar os livros nas caixas me deixava um pouco desamparada. Na companhia de Clarice, Manoel de Barros, Pessoa, o mundo era confortável, protetor e compreensível. A pandemia propiciou um casulo revestido de afetos, arte, palavras… A fragilidade das pessoas expôs necessidades no campo da saúde mental, revelou solidão, medo do colapso (de perder a si mesmo), mesquinhez, solidariedade, arrogância, lutos, perdas, recursos internos, vínculos, amores, saudades… Tenho ouvido muito as pessoas, me ouvido e conversado muito com amigos amados, suporte valioso para a acolhida do intenso do dia. Passamos a comemorar aniversário online e tecer abraços guardados à espera dos encontros. Entre livros, cultura, lives de artistas, filmes, poesias, a cada dia a percepção ficava mais refinada.

Depois de três meses, foi possível retomar a conclusão da reforma e a mudança. Descobri a casa das paredes desniveladas; nos profissionais da mudança, um grande paradoxo, a perplexidade deles diante dos acontecimentos da pandemia (é sempre mais fácil considerar a mudança dos outros), um microcosmo do mundo: um deles tinha integrado o MST, outro era casado com uma mulher trans, e assim fomos nos identificando e construindo uma relação de cuidado que fez a mudança terminar em roda de conversa emocionada no meio da sala. No dia da mudança, após subir a última caixa, tinha um compromisso, fiz um atendimento dos mais emocionantes, e no outro dia tinha uma live e reunião para tentar ajudar em ações para a Saúde Mental Indígena. E assim fui me percebendo nas casas que me habitam e como o trabalho e o cuidado me revestem.

Chego à nova casa, com uma parede que possui as marcas da construção feitas pelas amigas. Um novo espaço, que já possui tanta história antes mesmo de que eu morasse aqui. A arquiteta queria nivelar as paredes, corrigir os desníveis: pedi para deixar, gosto das imperfeições, labirintos, fendas. É uma casa artesanal, humana. Dia desses, gravei uma live no sol, ainda não tinha cortinas. É assim a vida, não há como conter a natureza, nem sempre há o que nos proteja, e luz e sombra fazem parte do que nos constitui. Embora sem cortinas, estava ali com eles, um grupo amoroso, inteligente e protetivo, constituído pelo afeto, pela palavra, pela troca de idéias e desejo de justiça social, para pensar cultura e política. Percebo que estou há três meses falando sobre afetos, ambivalências, tensões psíquicas, cuidados, ansiedades, medos, na reinvenção criativa da vida, luto, perdas; fomentando esperança, valorizando cultura, arte, políticas públicas, rede de apoio, vínculos, narrativas, afetos, perdão; problematizando narcisismo, destrutividade, incertezas, vida, morte, os abismos que nos habitam e os oásis.

Eu me mudei, eu mudei, vi pessoas mudarem, vi a cidade e o mundo mudar. Jamais seremos os mesmos, mas quem sai de casa quando isso passar? Quem é que vai para o mundo? Que valores, escolhas, prioridades, que olhar, que lugar para o tempo, a vida, a natureza, os vínculos ocuparão nossa existência? Como cuidaremos uns dos outros? O quanto a exclusão e injustiça social nos afetará? O que precisamos realmente consumir? Quanto de preconceito ainda é viral em nós? Quanto de amor nos contagia? Eu que sempre pergunto: Como você está, com o interesse genuíno de saber, escutei muitas histórias. Recebo mensagens, várias. Cada uma demonstra uma fragilidade e uma potência. Meu telefone se transforma em registro de experiências humanas de diversos sujeitos atravessados pela dor, luto, tristeza, ansiedade, medo, e também gratidão, partilha, gentileza em devolver em palavras o que acha que recebeu de afeto, colo e cuidado na minha fala. Descubro pessoas que partilharam histórias de vida silenciadas há tanto e despertas por uma live com uma desconhecida professora de Psicologia. O cuidado cria vínculo e cumplicidade. Nas mensagens pelas redes sociais, tento dar atenção a desconhecidos que se tornam íntimos, por partilharem do meu cuidado e que agora se irmanam em um projeto fraterno e solidário de pertença e trocas. Não sei se nos reconheceremos quando voltarmos às ruas, se nos reencontraremos. Guardo a esperança de que, após a pandemia, essas pessoas cuidadas, possam continuar atentas à escuta de si, à humanidade que as habita, e à sensibilidade para outros que fazem parte dessa rede de vida, e, quem sabe, partilharem um pouco dos cuidados que receberam. Desembalo caixas, reencontro memórias, assim é a vida: organiza, desorganiza e a gente encontra surpresas nas caixas, descobre que coisas se perderam, quebraram, mudaram, tornaram-se desnecessárias e descobre e constrói novos recursos para experimentar, porque o valioso mesmo é ter a posse de si e das infinitas caixas que cabem em uma alma disposta a mudar.

Seção sindical dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

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