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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 37: VIDA NOS SERTÕES DO SEMI-ÁRIDO

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 37: VIDA NOS SERTÕES DO SEMI-ÁRIDO

Moésio Mota (Historiador, Assessor Parlamentar)

Este ano de bom inverno não tomei banho nos riachos, nem nos açudes. De março pra cá não fiz as pescarias de anzol, minha maior válvula de escape para amenizar o corre-corre da cidade. Depois de 95 dias de quarentena, fui ao Bueno. Lá estão minhas raízes. Uma pequena comunidade rural, no município de Irauçuba, onde mora minha mãe. Agricultora, não arreda pé de sua casa durante a colheita por nada desse mundo. Meus três irmãos e uma sobrinha compõem o núcleo familiar. Foi uma viagem de cuidados redobrados, medo de levar ou trazer o vírus terrível, ainda circulando. Percebe-se, no entanto, que a parentada relativiza o perigo da doença, mesmo tendo vitimado pessoas próximas.

Viver nos sertões do semiárido não é fácil. É preciso coragem. A vida por aqui é dura, e não se baseia no resultado econômico. No Bueno, o valor está no modo de vida; no acordar ao clarear do dia, cuidar da vaca, do cavalo, do burro, das ovelhas, das galinhas, dos porcos, do plantio de capim, da lavoura de subsistência. A vida comunitária é sentida no cuidado com o campo e o jogo de futebol, na Igreja, na Casa de Semente, na resistência para não perder a Escola das crianças, no sistema de abastecimento d’água e na longa caminhada da Associação Comunitária, desde a conquista da energia elétrica nos anos 1990 até as experiências da agrofloresta e dos mutirões de ajuda mútua.

A cisterna cheia com água da chuva e o abastecimento com água encanada tranquilizam e garantem a vida na comunidade. Somam-se aos açudes cheios, arrodeados de plantios de forragem para esperar o verão, que devora o verde existente no período chuvoso. É tempo de esperança, de fartura, de agradecimento pelo inverno.

A labuta diária tem apresentado bons resultados na colheita de feijão. Apesar dos contratempos, das pragas, sobretudo dos roçados do sertão, a roça de cima da serra deu boa produção. Este ano, segundo meu irmão Antônio, “feijão dá pro gasto”. Milho, jerimuns, fava, ainda vingando, coroam o ano de fartura. Para completar, as boas chuvas encheram os açudes, garantindo água para os animais e abundância de peixes. “Água é uma riqueza!” diz minha mãe.

Também é tempo de mesa farta e de partilha. Não é possível voltar dessa viagem sem uma sacada de feijão, sem uma galinha caipira, sem um jerimum grande, doces, queijo e toda sorte de presente. A recusa soa como insulto. Generosidade e desapego material são valores passados de geração em geração, ainda presentes nas comunidades rurais. A maioria desse povo desconhece a avareza e celebra com a partilha o encontro e o reencontro. Volto para a cidade com as esperanças renovadas de que as novas gerações consigam permanecer no sertão e nunca faltem riquezas partilhadas.