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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 14 – SÉRGIO, UM CIDADÃO DO MUNDO

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 14 – SÉRGIO, UM CIDADÃO DO MUNDO

Caubi Tupinambá (professor da UFC)

Sergio, o filme
Direção: Greg Barker
Roteiro: Craig Borten
Estreia mundial: Sundance Film Festival, em 28.01.2020.

Tem o baiano Wagner Moura vivendo Sergio Vieira de Mello e a argentina Ana de Armas como Carolina Larriera. Podia ser apenas mais uma tentativa de dormir em uma noite dessa prolongada quarentena. No entanto, dormir depois de ter assistido ao filme Sérgio, foi dormir tranquilo, sabendo que, mesmo nesse eventual sentimento de impotência e/ou letargia em que possamos mergulhar, há coisas que valem a pena, nos reanimam e nos resgatam para continuar na luta. E como há. Há Wagner Moura, que é do Brasil, como Sérgio Vieira de Mello. Wagner, esplendoroso protagonista que paralelo ao ser querido que representou, quase alcança a perfeição, aquela que a gente costuma dizer só alcançam os Deuses. Mas Wagner é um deus. Não lhe faltam beleza, talento, carisma, empatia, compromisso e tudo que um homem na terra pode alcançar, deixando-o perto desses deuses da perfeição. Casa e botão. Wagner e Sérgio. Sérgio, cujo nome se confunde com o desejo de paz entre os povos. 34 anos de ONU e de busca de solução para conflitos de toda natureza. Talentoso no que fazia como seu correspondente na arte, ia a qualquer parte do planeta, a destinos os mais difíceis para, com êxito, resolver problemas aparentemente insolúveis. Testemunhou a transformação do antigo Paquistão Oriental na nova Bangladesh independente em 1971; esteve presente no Chipre durante a invasão do exército turco em 1974; na guerra civil de Moçambique em 1975 e no Líbano na altura da sua invasão por tropas israelenses. Além dessas missões, pode acompanhar a volta de refugiados ao Camboja, resultado de sua presença e força nas negociações que levaram a esse desfecho quase inimaginável. Sérgio integrou a missão especial das Nações Unidas no Kosovo, antiga Iugoslávia em 1993; esteve em Ruanda quando ocorreram os massacres de 1996; pode ver renascer de suas mãos o novo Estado do Timor Leste, quando lá esteve em 1999, liderando a transição da ex-colônia portuguesa para a independência, passagem da vida do filósofo e diplomata carioca que foi explorado centralmente nessa trama atual. Reorganizou um país mergulhado em conflitos de um pós-guerra, o que lhe rende hoje homenagens dos timorenses que afirmam ter perdido um irmão. Wagner nos traz o Sérgio que ocupa o cargo máximo no país em emancipação, mostrando também seu lado humano, apaixonado e apaixonante. Como todo homem de bem, Sérgio não é apenas mais um burocrata da ONU no Timor. É todo afeto e alma que transita por Dili, capital do país, onde conhece o grande amor da sua vida, com quem, a partir de então, ficaria até seus últimos minutos de presença viva no Iraque. Wagner é Sérgio até os átomos, talvez porque Wagner e Sérgio são seres sublimes, iluminados, humanistas e, portanto, possa ter havido comunicação espiritual e permissão divina suficientes para incorporá-lo no papel. Não há, para nosso mundo ou para a arte, diferenças entre os dois. As paixões, o compromisso com a humanidade e com a terra se igualam e, na tela, se revelam. Há o cuidado de mostrar as relações cotidianas de Sérgio porque ele era um homem a quem isso importava. O acesso, por meio do amor conquistado na terra estranha que se torna familiar, leva-o a adentrar na alma do Timor, e compreender a amplitude de sua ação e de sua missão nesse até então, novo e desconhecido mundo. O descortinar das vidas simples com que cruza, deliberadamente, em procura do conhecimento que lhe é característico, leva Sérgio, segundo a história representada primorosamente por Wagner, a saber a medida certa das suas intenções e a obstinação para consegui-las. Bem percebido no encontro que tem com o então presidente indonésio, de quem exige um pedido de desculpas formal à nova nação timorense pelos danos irreparáveis causados à sofrida população durante a brutal ocupação. Afinal, trata-se do primeiro assassinato em massa, promovido pela Indonésia, verdadeiro genocídio sob o comando do ex-ditador Suharto que custou a vida de um terço da população do Timor . “Você está louco, isso não se pede de um presidente”, é o que contra-argumenta o ditador. Mas Sergio o impede de sair ao dizer: Não, não é loucura, eles merecem esse pedido. A forma mesquinha como o senhor os vê será a forma como todo mundo verá a Indonésia se esse pedido de desculpas não for feito. Após a missão no Timor Leste, Sergio foi nomeado Chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos, em Genebra, sendo, contudo, logo convocado pelo secretário-geral da ONU para ajudar na reconstrução do Iraque, arrasado pela brutal invasão estadunidense. Timor não lhe trouxe só louros, mas também amor. Amor de uma bela e também engajada argentina, Carolina (Ana de Armas), que lhe acompanha daí até seu último dia de vida. Apesar de sempre convocado a deixar tudo e voltar ao Rio, por seu amor, por desejo pessoal e pelas doces lembranças da vida familiar, perto da pedra do Arpoador, não cedeu. Após curto período de vida social entre missões, parte para o Iraque. A partir de 2003, vinha tentando sustentar a ideia de ação não intervencionista, pois para ele “nenhum estrangeiro poderia governar o Iraque”. Nessa direção deveria ser criado um conselho provisório formado por nacionais iraquianos. Era a favor de uma iniciativa que garantisse ao povo que o processo de ocupação não ficasse indefinido no tempo. Queria só quatro meses por lá. Tempo, segundo ele, suficiente para deixar o Iraque com os iraquianos e seguir para seu Rio amado, com seu novo amor. Buscou, portanto, contribuir para um melhor entendimento entre os envolvidos naquela delicada tarefa, no país invadido e destroçado. Sentia-se, no seu discurso, a meritória ideia de não achar natural o país ser comandado ad infinitum por forças estrangeiras; o trabalho que ali realizasse deveria apontar na direção da promoção de uma progressiva autonomia política do país. Assim como se orgulhava de ter participado da missão no Timor, responsável pelo encerramento do ciclo de descolonização. Palavras que Wagner proferia e às vezes, dada a perfeição da atuação, nos fazia acreditar ser o próprio Sergio, sobre o Iraque: “Esse deve ser um dos períodos mais humilhantes da história desse povo. Quem gostaria de ver o seu país ocupado? Eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana”. Isso mostra a dimensão absurda e insana do ato terrorista que o matou, mesmo que em princípio qualquer ato terrorista seja injustificável. Há na narrativa do filme pontos que me intrigaram quando comparado com dados por mim já antes lidos sobre a ocupação e o ataque terrorista, que atingiu nosso grande Sérgio, causando essa perda irreparável. Especulo que se vivo estivesse mesmo como catedrático no Rio, no seu Arpoador, o mundo certamente teria alguém contribuindo com sua melhora. As dúvidas que o drama me trouxeram são atrozes. Por que, segundo o retratado, se demorou a socorrê-lo se ainda esteve tanto tempo sob os escombros, vivo e lúcido? Por que salvaram primeiro o companheiro estadudinense a seu lado e só muito depois chegaram a ele? Qual a atuação do seu correligionário representante do governo estadudinense nesse evento, onde esteve presente pós atentado? Para mim aparentou uma possível negligência e pouca determinação para salvar Sérgio. Claro fica na tela que o representante estadudinense competia com Sérgio pelo poder na missão do Iraque, sendo que sua competência é visivelmente questionável e diria, incomparável à do querido diplomata, cuja alma foi emprestada ao Wagner para lhe fazer imortal. Rever o filme para pensar sobre esses tópicos é quase uma necessidade. Não se trata de teoria da conspiração, mas o incômodo que as mensagens da trama deixaram. Não há, pela história da invasão do Iraque por Bush, como acreditar na boa vontade de quem chefia uma missão pós invasão, que queria a ONU sob seu comando. A inveja do representante americano e seu desejo em controlar Sérgio de Mello são inquietantes. O jornal The New York Times resumiu a perda do nosso Sérgio numa frase: “um grande defensor da paz e da reconciliação [foi] assassinado em uma ato de niilismo.” Um grande ator em Praia do Futuro (filme do cearense Karim Ainouz) e o grande diretor que fez renascer nas telas Marighella, honrou um dos nossos bens preciosos com seu inegável dom e talento incomparáveis, sem esquecer seu incomensurável humanismo. Tudo isso fundamental para viver Sergio de Mello. FIQUE EM CASA. SALVE VIDAS!