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MEMÓRIAS DE QUARENTENA nº 11 – FICAR DE QUARENTENA É UMA ARTE

MEMÓRIAS DE QUARENTENA nº 11 – FICAR DE QUARENTENA É UMA ARTE

Zuleica Araripe (Professora de Teatro)

Somos 5 adultos, 1 criança, 4 cadelas e 1 papagaia. Sim, é essa nossa realidade. Risos! Estamos há mais de cinquenta dias em Distanciamento Social, dividindo um espaço, diga-se de passagem, uma ampla casa, com varanda, terraços, enfim, espaço não nos falta. Agora, mais do que nunca, me dei conta disso. E falo para mim todos os dias: sou uma felizarda! E apesar de sofrer muito pelos que estão em situação de grande sofrimento, jogados pelas ruas, sem ter o que comer, não me culpo por isso, mas me revolto com a postura dos governantes, que não assumem seu real papel de dar suporte à população. E quero muito transformar essa revolta em ação. Em meio a convivência intensa, tem o Tauan, meu neto de 3 anos e 10 meses, uma criança por demais “ativa”, para não dizer um danadinho de primeira, que sempre ao acordar, geralmente às 6:30h, entra nos quartos acendendo as luzes bem nos nossos olhos e dizendo em alto e bom tom: LUZZZZZ.

Meus pensamentos e sensações variam muito. Inicialmente, eu tinha a sensação de que acordaria a qualquer momento e sairia contando sobre meu estranho pesadelo. Com o passar dos dias, comecei a perceber que era verdade mesmo. A minha vida PAROU. A vida de todos foi suspensa…. Agora eu tenho que cuidar de mim para cuidar do outro e vice versa. Por dias, entoou na minha cabeça a estrofe de uma música que diz assim: cuidar do outro é cuidar de mim…. cuidar de mim é cuidar do outro. Agora deixou de ser uma música e passou a ser uma ação. Na verdade, a única ação a ser executada no momento, mas de uma grandeza que cabe em toda e qualquer situação. Numa outra etapa, fiquei ligada na música: o dia em que a Terra parou. E coloco nos meus pensamentos algo muito subjetivo: como um minúsculo vírus pode parar o MUNDO! Tem dias que me pego muito reflexiva. Penso nos fantasmas que me assombram, mas, como não posso sair para me distrair, sei que eles é que precisam sair de perto de mim. Desvio meu pensamento melancólico e busco pensar em Gabriel (meu netinho mais novo que tem 7 meses), e que não o vejo há muitos dias. Abro um sorriso, lembrando das dobrinhas de cada braço, do sorriso dele que já tem dentinhos, enfim…, apesar da frustração por não está acompanhando os detalhes de seu desenvolvimento, sei que “em breve” estarei com ele. Busco pensar em Josué, meu neto mais velho, com 4 anos e 4 meses, outro muito “ativo”, que é um moreno lindo e engraçado, cuja mãe receberá Kaleb, dentro de 3 meses…e, que, lamentavelmente, não tenho podido acompanhá-la nas consultas, nem ver, ao vivo, a barriguinha crescendo. A distância de Gabriel e seus pais; de Josué e seus pais, me fez ver que contatos pelo celular não são tão satisfatórios como pareciam ser … há 49 dias atrás….

É, a Quarentena, o “Fique em Casa”, a convivência ininterrupta, sem intervalos com outras pessoas, é algo no mínimo estranho. Todos produzimos muita Arte e nem nos damos conta disso. A Arte de conviver é a mais abrangente de todas. Daí mais uma reflexão do quão Arte é Tudo e está em Tudo…. É difícil explicar a Tauan, por exemplo, que lá fora tem um vírus (o que será isso, Vovó?), que não nos deixa ir à praia, à escolinha, ao parque, ver os priminhos; levar milho para os patinhos no Lago Jacarey, andar descontraidamente pelas calçadas do bairro?? Também não posso simplesmente abrir o celular, o tablet, o PC e mostrar imagens de um vírus para Tauan. O Corona, por ser abstrato, só através da arte podemos tentar aproximar com a concretude. Mais uma vez me percebo pensando no mundo virtual e sua “verdadeira importância”… Será que esse mundo merece tanta reverência? Por outro lado, posso criar uma forma, de uma maneira bem lúdica, de explicar o vírus, mas minha única ferramenta é a Arte, através de um teatrinho de bonecos, de uma pintura de um vírus imaginário, de uma historinha, uma música, enfim, apesar de querer muito que o Coronavírus se torne algo do passado o mais breve possível, somente as ferramentas que as diversas linguagens artísticas têm, podem dar vida ao vírus, ao ponto de uma criança entendê-lo e aceitá-lo como um “chato”, que não nos permite passear, ir à escola, mas que Vai Embora, talvez pelo vento forte ou através de uma pessoa que Estuda muito e conseguirá uma maneira de tirá-lo de perto. Essa “pessoa” é a Ciência, que tem seu Inquestionável valor. Isso também a Arte pode mostrar para as crianças e para todos. Ciência e arte são fundamentais.

Para finalizar mais esse dia de Isolamento, ressalto algumas sensações que talvez resumam todo meu escrito, dizendo que a Luzzz que Tauan acende todas as manhãs, é, na verdade, a Luz que preciso para seguir acreditando que as crianças do mundo e do meu País iluminam nossas vidas, merecem e têm Direito de serem Cuidadas e Respeitadas. Digo também que, quando Tauan elege um macaquinho de pelúcia para ser seu amigo do cotidiano, é porque a internet e seus atrativos não o satisfazem, que, na verdade, Tauan nos mostra que precisamos de amigos, de gente ao nosso lado, brincando conosco, conversando, aprendendo e ensinando. E, se meu pai ainda estivesse nesse Mundo, seria um Idoso, Médico, com Ideologias Brilhantes, talvez estivesse acometido de tristeza e medo, por saber que essa Pandemia traz à tona outros vírus, que jamais usarei a arte para explicar a meus netos, pois não vale a pena tirá-los de suas ingenuidades e amedrontá-los mais ainda.