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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 09: ESPIRITUALIDADE EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 09: ESPIRITUALIDADE EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

Padre Luís Sartorel

Falar de espiritualidade hoje, em tempos de crise mundial, provocada pelo coronavírus, parece a coisa mais simples e de fácil compreensão. Logo aparece no nosso imaginário uma série de palavras e imagens que nos fazem pensar na nossa relação com Deus, com o sobrenatural, qualquer que seja o credo religioso, e nos faz “elevar” no rumo do céu, esquecendo-nos da matéria de que é feito o mundo, a nossa mãe terra, e o nosso próprio corpo. Muitas vezes rejeitando a própria matéria, como fruto do sinal de pecado.

Como a espiritualidade tem muito a ver com conceitos e imagens que estão presentes no nosso “intender” Deus, acho que é necessário esclarecer este conceito, a partir de alguns princípios bíblicos que nos ajudam a compreender melhor quem é Deus, o nosso Deus, o Deus dos Cristãos, como é apresentado pela experiência e fé bíblicas.

O primeiro elemento que a Palavra de Deus nos apresenta é que Deus (Javé) se revela na História da humanidade. Não é um mito e nem uma construção feita à nossa medida e interesse. É através de pessoas que fizeram a experiência do seu Amor, que reconhecem e aceitam a proposta que nos vem desde sempre para a construção de um mundo justo e fraterno. É um Deus que desce (deixa de lado a sua divindade onipotente) para se fazer parte da nossa experiência humana. Desde o livro do Êxodo (Êx 3), Deus nos se apresenta assim.

Com a ação e a palavra dos Profetas bíblicos, aparece claro o segundo aspecto: Não é um projeto individual (“eu tenho que salvar a minha alma…”) e sim um projeto de vida comunitário, para toda a humanidade. É a partir dos últimos, que este mundo deve ser pensado e construído. Se não for assim, tudo o que construímos, não estará incluído no projeto de Deus.

O terceiro ponto é claro e decisivo: Jesus, encarnação do Deus vivo, é aquele que nos revela o rosto do Pai. Ele veio para nos explicitar mais uma vez, e de forma contundente, em que consiste o projeto do Reino de Deus. Lucas, no seu Evangelho, cita o profeta Isaias, e nos apresenta Jesus, dizendo a que veio: “O Espirito do Senhor me ungiu e me enviou para anunciar a Boa-Nova aos pobres: para proclamar aos cativos a liberdade e aos cegos a recuperação da vista, para pôr os oprimidos em liberdade, para proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).

Jesus diz claramente que vai cumprir a sua Missão, deixando-se conduzir pelo Espírito, e, como nos diz o apóstolo Paulo, a pessoa “espiritual” é aquela que, deixando-se conduzir pelo Espírito, reconhece onde e como este Espirito atua na história. Aqui está a raiz da espiritualidade cristã: escuta atenta à voz do Espírito, fidelidade à missão, serviço amoroso aos irmãos, na defesa e promoção da vida (Jo 13,1-20). João nem cita a Eucaristia, que, na última ceia, substitui com o lava-pés, o equivalente da Eucaristica. Não é necessário ir ao templo, porque, como ensinavam os Rabinos, em caso de necessidade, é suficiente dizer “Amém” que é o “Credo num sopro”, ato de fé e de comunhão com «Deus, meu rei fiel» (estas palavras em hebraico formam o acróstico de “Amem”). Com a morte de Jesus na cruz, foi crucificada a onipotência do Deus “faraó, imperador, rei, dominador”. Agora é presente um “Deus esvaziado” (Fl 2,7) que quer “misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13 e Os 6,6).

As primeiras duas distorções que podemos encontrar na vivência da espiritualidade podem ser a de “espiritualizar” as nossas relações esquecendo da realidade, saindo assim de uma relação encarnada; a segunda consiste na “blasfêmia” contra o Espírito Santo, fechando-se aos apelos de Deus e atuando segundo critérios que só estão de acordo com a nossa conveniência. Em outras palavras: distorcer a realidade, atribuindo ao maligno o que, ao contrário, é uma ação de Deus (Mc 3,28-30). E ainda, estas pessoas endurecem o coração como o do faraó: “têm ouvidos, mas não ouvem, têm olhos, mas não enxergam…” (Mt 13,10-15).

Esclarecidos estes elementos relacionados com ESPIRITUALIDADE, podemos já nos dar conta de que o coronavírus NÃO é um castigo de Deus. Quem vê estas situações de sofrimento como castigo de Deus pelos pecados cometidos, está vivendo ainda com a mentalidade do povo do Antigo Testamento, que nos propicia a imagem de um Deus “policial castigador”. Temos que dar um passo adiante na compreensão de Deus e no amadurecimento da nossa fé; é só ler e meditar o episódio do cego de nascença narrado no cap. 9 do Evangelho de João. Nesta passagem, e em muitas outras, Jesus nos mostra claramente como o sofrimento não é um castigo de Deus, embora saibamos muito bem que pode ser uma consequência das nossas ações e atitudes erradas e egoístas. Como então Deus nos fala hoje? Lendo agora, com os olhos da fé, esta realidade de morte que o mundo está experimentando, podemos dizer sim que a voz de Deus se manifesta através da natureza: a terra mãe é um ser vivo que precisa ser cuidado e amado, como espaço e casa comum. É só observar como a poluição diminui e os rios estão se tornando mais limpos durante este tempo em que forçosamente a produção de poluentes diminuiu. A vida como um todo é muito mais importante do que o lucro sem medida e a qualquer custo. Espiritualidade hoje é viver esta dimensão da ecologia integral, como nos diz o Papa Francisco nos seus documentos, mostrando como tudo está interligado. O Sínodo da Amazônia foi uma fonte de espiritualidade encarnada e integral.

Quem está com disposição para escutar a voz do espírito, sabe muito bem que, passada a tempestade do coronavírus, o mundo, a economia, as relações entre os povos não poderão mais continuar do mesmo jeito, sob pena da autodestruição e a morte das próximas gerações.

Podemos nos colocar, então, como o povo que saiu do Egito, na situação de quem deve caminhar por 40 anos (biblicamente uma vida, com atitude de conversão) para poder descobrir e instalar uma nova maneira de viver. E aqui será necessária uma profunda espiritualidade: de renúncia, de humildade, de partilha, de respeito e de atenção com os mais necessitados. Gostaria de usar aqui uma palavra bem bíblica: Conversão. A situação nos mostra como a humanidade chegou nos seus limites de exploração, e a terra não suporta mais. Lembro aqui o que dizia Arturo Paoli, pequeno irmão de Jesus, numa advertência para todos os cristãos e sobretudo para nós padres: “Vocês nunca disseram que ir na missa é como escrever-se a uma ação de guerrilha? Nunca disseram que os que participam da missa estão fazendo o ato mais perigoso do mundo? Nunca disseram aos que assistem à missa pacificamente, bocejando, que estão com pressa que termine para poder sair e negociar, que estão fazendo um ato perigosíssimo?” (Arturo Paoli, Camaldoli, 1991). Neste caso, conversão não é somente uma atitude pessoal através da qual eu me arrependo das minhas coisas malfeitas, mas é um esforço coletivo para mudar as estruturas injustas que, nesta sociedade, produzem mecanismos de morte na marginalização de milhões de pessoas.

Não é por acaso que na Eucaristia os elementos próprios são “a palavra, o pão, o vinho, a água, a fraternidade e partilha” (“partiu o pão e o deu para eles”); isto é, os elementos/alimentos fundamentais da humanidade aos quais todos têm direito e, até que sobre a terra terá um sedento de palavra e água ou um faminto de pão, a Eucaristia é um ato de condenação irreversível de um mundo perverso e perdido. A Missa hoje é cuidar dos outros, defendendo-os do difundir-se do vírus e dos vírus; é aprender o que significa “discernir entre as prioridades”, defender os mais frágeis e não procurar… o milagre, só para resolver o “meu problema”. Quando aprenderemos, nós católicos, a “não nomear o Nome de Deus no vazio?” (Êx 20,7). Este tempo pode ser uma oportunidade enorme para rever nossos conceitos e nossas ações, embora ninguém sabe o que e como vai se reformular a maneira de viver da humanidade.

Espiritualidade é não perder a esperança, é saber que tudo depende de nós, embora sempre com a ajuda de Deus, e que este coronavírus nos alerta sobre a presença de outros vírus: o acúmulo sem medidas, a exploração das pessoas e da natureza, o desejo de poder e dominação.

Que O Senhor Jesus, o Ressuscitado, nos ajude a viver a Eucaristia Páscoa nas nossas casas redescobrindo a Igreja Doméstica, na celebração do Pão e do Vinho repartidos.