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30 DE AGOSTO – Ações coordenadas e descentralizadas movimentam Dia de Paralisação na UFC e ganham projeção nacional

30 DE AGOSTO – Ações coordenadas e descentralizadas movimentam Dia de Paralisação na UFC e ganham projeção nacional

No atual contexto de claras ameaças às nossas universidades, a comunidade universitária segue na resistência com intensa agenda de atividades organizadas pelo Comitê em Defesa da Autonomia Universitária, que já funciona há duas semanas. Convocado pelos estudantes em assembleia geral, o Dia de Paralisação, realizado no último dia 30 de agosto em Fortaleza-CE, voltou a denunciar os graves ataques à educação promovidos pelo atual governo e colocou a Universidade Federal do Ceará (UFC) em foco. As ações do movimento, apoiado pela ADUFC, ganharam projeção nacional, ampliaram-se e somaram-se, ainda, ao ato em alusão aos 40 anos da Lei da Anistia e aos protestos durante a abertura da 29º edição do Cine Ceará.

Ao longo de todo o dia, diversas ações descentralizadas foram realizadas pelos estudantes, com o apoio de boa parte dos docentes e técnico-administrativos. Pela manhã, foi realizado um cortejo pelo Campus do Pici, além de aulas públicas, atividades culturais e ciclos de debates nos jardins da Reitoria. Durante o cortejo, o professor Custódio Almeida foi chamado pelos estudantes que iniciavam o protesto. Ele participava de uma reunião de trabalho no Departamento de Integração Acadêmica e Tecnológica, no Centro de Tecnologia.

“O paradigma de liberdade é o que garante a universidade continuar sendo universidade. Essa luta que a gente faz hoje a partir do que aconteceu na UFC também já atingiu outras regiões como o Recôncavo da Bahia, no Vale do Jequitinhonha, em Grandes Dourados e outras. São golpes contra a autonomia universitária”, disse Custódio.

Na ocasião, o professor acabou fazendo seu primeiro discurso público após ter sido preterido pelo presidente Jair Bolsonaro, que impôs um interventor rejeitado por ampla maioria da comunidade universitária (Cândido Albuquerque, que obteve 610 votos frente aos 7.772 de Custódio – o mais votado).

À noite, o ato em alusão aos 40 anos da Lei da Anistia acabou somando força à defesa da autonomia universitária. Realizado na Praça da Gentilândia, no bairro Benfica, o professor e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, aproveitou sua visita à capital cearense para denunciar a intervenção na UFC. A imposição de um interventor pelo governo Bolsonaro, segundo Haddad, contraria a vontade da comunidade acadêmica da Universidade. “Em sete anos que passei à frente do Ministério da Educação, a vontade da comunidade acadêmica nunca foi desrespeitada em nenhuma universidade”, disse ele, na Praça da Gentilândia.

Foto: Nah Jereissati/ADUFC

Na avaliação de Fernando Haddad, as intervenções que estão ocorrendo nas universidades e institutos federais são uma tentativa de “mudar a ordem das coisas”. E enfatizou: “Estão querendo tirar dinheiro público da universidade e fazê-la começar a prestar serviço pra empresa. Se a universidade fizer isso, ela vai matar a pesquisa, o ensino autônomo e a extensão”.

 

ADUFC na luta

Professor e presidente da ADUFC, Bruno Rocha também esteve no palco durante o ato e teve seu discurso respaldado pelo ex-ministro. “Hoje nós temos uma intervenção na universidade. E é bom que estejamos aqui. Por que é na luta, nas ruas, nas praças, e lá na frente da Reitoria que a gente impede que o autoritarismo impere”, disse Bruno. O dirigente enfatizou que a comunidade acadêmica não aceita a intervenção que vem ocorrendo nas universidades federais brasileiras.

Foto: Nah Jereissati/ADUFC

“Queremos a democracia. A gente tem de ter a compreensão de que nenhum desses reitores empossados pelo Bolsonaro tem legitimidade e nenhum pode ser aceito. Nossa presença na Reitoria (da UFC) é contra a intervenção e é em defesa da universidade pública”, explicou Rocha, reiterando que o Future-se – já rejeitado pela comunidade universitária, é um projeto de privatização das universidades. Representando os estudantes, a estudante de Psicologia da UFC Stefany Aragão adicionou: “A gente vive na UFC hoje um claro ataque do governo Bolsonaro, que é uma intervenção. Estamos aqui hoje pra fazer essa denúncia, fortalecendo a luta na UFC, ocupando a Reitoria há mais de uma semana”.

Nas falas dos organizadores do ato em alusão aos 40 anos da Lei da Anistia, associou-se, inevitavelmente, a luta pela manutenção da democracia no Brasil à luta em defesa da educação. Vários parlamentares, como o deputado estadual Renato Roseno (Psol) e a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), somaram-se às denúncias dos ataques à UFC. “Vamos continuar na oposição a esse governo entreguista que quer privatizar nossas empresas públicas e que já fez um desmonte total na estrutura do estado”, disse Luizianne, que também é professora da instituição.

A deputada classificou a intervenção na UFC como um “golpe” que se repete. “Já vimos outra vez: quando eu era estudante, o terceiro menos votado foi indicado pelo governo Collor de Melo. Agora é muito pior: porque na época do Collor o candidato tinha um projeto pra universidade. Era respeitado internamente. Esse atual, além de não ter compromisso com ela, veio pra privatizar a Universidade Federal do Ceará”, afirmou.

 

Cinema em defesa da universidade

No mesmo dia da paralisação dos estudantes, a UFC viu ecoar mais um apoio fundamental na defesa de sua autonomia – desta vez, com dimensão internacional, em pleno Centro de Fortaleza. Em um Cineteatro São Luiz abarrotado, a plateia do 29º Festival Ibero-Americano de Cinema – Cine Ceará endossou o posicionamento do principal homenageado da noite de abertura do evento.

O diretor cearense Karim Aïnouz, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme internacional, defendeu a UFC como “patrimônio da sociedade cearense”, em discurso pouco antes da apresentação de seu filme – “A Vida Invisível” – no festival. “Eu digo não à intervenção na Universidade Federal do Ceará, que nomeou um reitor aliado ao projeto de privatização das universidades. A comunidade universitária não aceita interventor, não aceita a privatização do ensino”, declarou Karim, ovacionado por boa parte da plateia que gritava “Fora, interventor!”.

Foto: Divulgação

A fala do cineasta foi antecedida pelo protesto de professores e estudantes que ergueram uma faixa no palco contra a nomeação de Cândido Albuquerque para a Reitoria da UFC – entre eles, dirigentes e membros da ADUFC, que organizaram a ação em parceria com os demais integrantes do Comitê em Defesa da Autonomia Universitária. Além de Karim Aïnouz, somaram-se às palmas em apoio ao movimento atrizes como Fernanda Montenegro, Julia Stockler e Carol Duarte.

Ainda como parte das denúncias à sociedade sobre os ataques às universidades federais, e mais especificamente à UFC, as ações integradas se estenderam ao entorno da Praça do Ferreira. Um dos pontos altos dos protestos foram mensagens projetadas em luz em um dos prédios históricos mais conhecidos do Centro – o antigo Hotel Savanah, onde hoje funciona o Centro Universitário e Faculdades Maurício de Nassau – Uninassau. Ao longo dos 13 andares da edificação, frases como “Autonomia + democracia”, “Cândido é interventor”, “Fora Interventor!” e “Em defesa da UFC” puderam ser vistas à distância por cerca de três horas.